Hoje é o dia do Carlos Drummond de Andrade,e para homenageá-lo aqui vai uma poema dele :
RAPTO
(Carlos Drummond de Andrade)
Se uma águia fende os ares e arrebata
esse que é uma forma pura e que é suspiro
de terrenas delícias combinadas;
e se essa forma pura, degradando-se,
mais perfeita se eleva, pois atinge
a tortura do embate, no arremate
de uma exaustão suavíssima, tributo
com que se paga o vôo mais cortante;
se, por amor de uma ave, ei-la recusa
o pasto natural aberto aos homens,
e pela via hermética e defesa
vai demandando o cândido alimento
que a alma faminta implora até o extremo;
se esses raptos terríveis se repetem
já nos campos e já pelas noturnas
portas de pérola dúbia das boates;
e se há no beijo estéril um soluço
esquivo e refolhado, cinza em núpcias,
e tudo é triste sob o céu flamante
(que o pecado cristão, ora jungido
ao mistério pagão, mais o alanceia),
baixemos nossos olhos ao desígnio
da natureza ambígua e reticente:
ela tece, dobrando-lhe o amargor,
outra forma de amar no acerbo amor.
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A Química do Amor
Poderia talvez pensar-se que a paixão,
Com os laboratórios, nada tem a ver,
Mas não será o amor uma combustão,
os sentimentos fumegantes, a ferver ?
Poderemos descrever uma união,
Como sendo uma mistura homogénea ?
Dois seres em constante transformação,
Na procura de uma alma gêmea.
Os meus átomos a ti se querem juntar,
Irei identificar-te pelo teu odor,
Poderás reagir com todo o esplendor.
Substâncias que não se podem separar.
Junto a mim, serás o meu catalisador,
Sem ti, sou um reagente sem reator.
(Vasco de Souza )
Poderia talvez pensar-se que a paixão,
Com os laboratórios, nada tem a ver,
Mas não será o amor uma combustão,
os sentimentos fumegantes, a ferver ?
Poderemos descrever uma união,
Como sendo uma mistura homogénea ?
Dois seres em constante transformação,
Na procura de uma alma gêmea.
Os meus átomos a ti se querem juntar,
Irei identificar-te pelo teu odor,
Poderás reagir com todo o esplendor.
Substâncias que não se podem separar.
Junto a mim, serás o meu catalisador,
Sem ti, sou um reagente sem reator.
(Vasco de Souza )
Todas as palavras que não mais te direi
Todas as palavras que não mais te direi,
Regurgitam nesta garganta sufocada;
A tristeza;Angústia em dor transformada.
Por que outrora suspirei;Não mais verei.
Desculpa-me sempre que te apontei defeito,
Eterno será este amor que não tem fim,
Porque foste tu assim embora sem mim,
Ferida permanente aberta no peito.
Grande saudade que me corroi por dentro,
Da minha vida traço sinistro espectro,
Essa malvada que te afastou de mim !
Desaparece quando tinhas tanto
para dar; Cada linha será um pranto.
Porquê ? Levasse-me antes Ela a mim !
(Vasco de Sousa)
Todas as palavras que não mais te direi,
Regurgitam nesta garganta sufocada;
A tristeza;Angústia em dor transformada.
Por que outrora suspirei;Não mais verei.
Desculpa-me sempre que te apontei defeito,
Eterno será este amor que não tem fim,
Porque foste tu assim embora sem mim,
Ferida permanente aberta no peito.
Grande saudade que me corroi por dentro,
Da minha vida traço sinistro espectro,
Essa malvada que te afastou de mim !
Desaparece quando tinhas tanto
para dar; Cada linha será um pranto.
Porquê ? Levasse-me antes Ela a mim !
(Vasco de Sousa)
Fanatismo
(Florbela Espanca)
Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão de meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!
Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!
Tudo no mundo é frágil, tudo passa..."
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!
E, olhos postos em ti, vivo de rastros:
"Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!..."
(Florbela Espanca)
Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão de meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!
Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!
Tudo no mundo é frágil, tudo passa..."
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!
E, olhos postos em ti, vivo de rastros:
"Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!..."
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